O dilema da conexão: por que o biometano avança 'sobre rodas' antes de chegar aos dutos?
Uma análise sobre os entraves econômicos dos dutos, a ascensão do "gasoduto virtual" e o momento regulatório que define o mercado.
Por Heleno Quevedo - Colunista do Portal Energia e Biogás
O dilema
O mercado brasileiro de biometano vive um momento decisivo em 2026. A recente regulamentação da Lei do Combustível do Futuro, com seu mandato de descarbonização, estabeleceu um norte inquestionável. Contudo, entre o planejamento de grandes hubs conectados por dutos e a realidade do campo, surge uma dicotomia reveladora. Enquanto o Estado desenha mapas de infraestrutura, o mercado, em um movimento prático e ágil, já está monetizando a molécula renovável. Este cenário nos leva a uma pergunta central, que esta coluna se propõe a analisar: por que a expansão "sobre rodas" supera, no curto prazo, a via dutoviária? A resposta reside em um alinhamento superior de viabilidade econômica imediata, flexibilidade logística e uma poderosa "inércia positiva" do setor produtivo, que contrasta com os altos custos de capilaridade e a complexidade de escala que ainda travam os projetos de integração física.
A lógica do mercado: o custo como barreira estrutural dos dutos
O Plano Nacional Integrado de Infraestruturas (PENIG) mapeia hubs estratégicos de biometano, vislumbrando uma rede integrada. No entanto, a transição do papel para a prática esbarra em um obstáculo econômico estrutural: o alto custo de capilaridade.
A produção de biometano é, por natureza, descentralizada e pulverizada. Ela emerge em usinas de açúcar e etanol no interior de São Paulo, em fazendas no Triângulo Mineiro e em aterros sanitários distantes dos grandes centros consumidores. Conectar cada um desses pontos à malha nacional de gasodutos exigiria investimentos (CAPEX) astronômicos em ramais de baixa utilização. O modelo econômico dos dutos depende de volume e escala constantes para diluir seu custo fixo e oferecer uma tarifa competitiva. Para a maioria dos produtores, especialmente os de menor porte ou localizados em regiões de baixa densidade de consumo, o custo do transporte por duto inviabilizaria o negócio, tornando o biometano não competitivo frente ao gás natural fóssil ou mesmo a outros combustíveis.
Esta é uma equação matemática implacável. Enquanto o gás do pré-sal justifica mega gasodutos por seu volume concentrado, o biometano (pré-sal caipira) precisa de uma solução logística tão distribuída quanto sua origem. Tentar forçar uma conexão dutoviária prematura, sem a escala consolidada, seria prejudicial, encarecendo o produto justamente no momento em que ele busca ganhar mercado.
A solução prática: a ascensão do "gasoduto virtual"
Diante do desafio do duto físico, o mercado criou e adotou em massa sua própria solução: o modelo off-grid ou "gasoduto virtual". Este conceito, que se materializa em caminhões de Gás Natural Comprimido (GNC) ou Liquefeito (GNL), tornou-se a espinha dorsal da expansão inicial do biometano por três razões fundamentais:
- Flexibilidade geográfica e regulatória: um caminhão pode alcançar qualquer cliente industrial ou posto de abastecimento, independentemente de sua proximidade com um gasoduto. Ele contorna a necessidade de longos e complexos processos de licenciamento ambiental para obras lineares de dutos, que podem levar anos.
- Agilidade (time-to-market): enquanto um projeto de gasoduto está no papel, uma rota de caminhão pode ser estabelecida em semanas. Isso permite que as indústrias cumpram suas metas de ESG e reduzam sua pegada de carbono "para ontem", respondendo a uma pressão de mercado imediata.
- Viabilidade econômica para volumes médios: para distâncias regionais e volumes característicos da produção atual, o custo logístico do transporte rodoviário é frequentemente inferior ao custo de capital de um duto subutilizado. Ele transforma um problema de infraestrutura nacional em uma solução de logística contratável.
Esta lógica é visível nos "corredores sustentáveis" que surgem entre regiões produtoras e polos industriais, onde carretas abastecem frotas cativas e clientes off-grid. É a monetização prática e imediata da molécula, sem depender da infraestrutura ideal.
O motor da oferta: a "inércia positiva" do setor sucroenergético
O crescimento explosivo da oferta não é obra do acaso, mas de uma dinâmica poderosa de mercado: a inércia positiva do setor sucroenergético. Quando uma grande usina anuncia um projeto para transformar vinhaça (um passivo ambiental) em biometano (um ativo financeiro), ela desencadeia um efeito em cadeia.
Usinas vizinhas, que compartilham a mesma localização, insumos e desafios logísticos, são compelidas a avaliar a mesma tecnologia para não ficarem para trás em uma nova frente de receita. Esse movimento cria clusters naturais de produção, como os observados no interior de São Paulo e em Minas Gerais, que são os embriões dos futuros hubs mapeados pelo PENIG.
Neste ecossistema em amadurecimento, ocorre uma especialização saudável de papéis:
- A usina (produtor): foca em sua habilidade técnica central: produzir biocombustível e energia de forma eficiente, monetizando seus resíduos com segurança contratual.
- A comercializadora (trading): assume o risco de mercado e a complexidade logística, agregando volume de vários produtores e levando o biometano até o cliente final, seja por caminhão ou, futuramente, injetando na rede.
Esta separação é crucial. Ela permite que o produtor rural (biometanocultor) ou a usina não precisem se tornar especialistas em vendas de gás, enquanto profissionais do setor energético fazem a ponte com a demanda industrial.
O encontro dos caminhos: regulação, mercado e o futuro híbrido
O marco regulatório de 2026, com seus Certificados de Garantia de Origem (CGOBs), não é obsoleto; ele é complementar. Ele cria um mercado de atributos ambientais que pode funcionar em paralelo ao mercado físico. Um cliente conectado à rede de gás pode comprar CGOBs para descarbonizar seu consumo, mesmo que a molécula de biometano que originou o certificado tenha sido entregue por caminhão a outro consumidor. Isso dá flexibilidade e acelera a descarbonização da economia como um todo.
O futuro, portanto, é híbrido e evolutivo:
- Curto prazo (momento presente - 2028): a expansão continuará dominada pelo "gasoduto virtual" rodoviário, atendendo demanda industrial off-grid e frotas de transporte. Os clusters do setor sucroenergético crescerão organicamente.
- Médio prazo (2028 - 2032): à medida que os clusters atinjam escala crítica e o mandato de descarbonização exija volumes maiores, os primeiros gasodutos regionais de curta distância se tornarão economicamente viáveis para conectar esses hubs à malha principal ou a grandes consumidores.
- Longo prazo (pós-2032): A malha de dutos se consolidará como a espinha dorsal para transporte de grandes volumes entre regiões, enquanto a logística rodoviária permanecerá essencial para capilaridade e atendimento a demandas pontuais.
A vitória do que é viável agora
Em fevereiro de 2026, a lição é clara: no Brasil, o biometano não avança pelo caminho ideal traçado no papel, mas pelo caminho possível aberto pelo mercado. A indústria, pressionada por ESG e custos, busca a solução descarbonizante hoje. O setor produtivo, impulsionado por inércia positiva, oferece volume crescente. Este encontro ocorre na ponta de um caminhão de GNC com biometano, não na boca de um duto.
A infraestrutura dutoviária permanece como visão estratégica de longo prazo, fundamental para a descarbonização em escala nacional. No entanto, sua viabilidade depende justamente do sucesso do modelo atual "sobre rodas", que está provando a tecnologia, consolidando a cadeia, criando escala e educando o mercado.
O biometano brasileiro não esperou o futuro; ele construiu seu próprio presente sobre rodas, e a partir desta base sólida e prática, irá, no tempo econômico correto, conquistar os dutos.
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Autor: Heleno Quevedo
Este artigo não é de autoria do Portal Energia e Biogás. Os créditos e responsabilidades sobre o conteúdo são do autor. O Portal oportuniza espaço para especialistas publicarem artigos e análises relacionados ao mercado de biogás, biometano e digestato. Os textos não refletem necessariamente a opinião do Portal.



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